Estimulantes sexuais: o que a Anvisa proibiu e o que tem evidência
Em fevereiro a Anvisa tirou mais de 150 géis e extratos eróticos do mercado. Como saber se o produto da prateleira é regularizado e o que a ciência sustenta.

Em 25 de fevereiro de 2026 a Anvisa publicou no Diário Oficial a Resolução-RE 703, que proibiu a fabricação, a venda, a importação e a propaganda de mais de 150 géis de massagem, lubrificantes e extratos energéticos de um único fabricante. Quatro meses antes, a RE 4.145 tinha feito o mesmo com o Estimulante Natural em Gotas da marca Tesão de Vaca Original. No mesmo período, o Censo ABIPEA 2026, que ouviu 1.271 lojistas do setor, apontou os cosméticos íntimos como a categoria mais vendida das sex shops brasileiras. A prateleira que mais gira é também a que mais aparece nas resoluções.
O que foi tirado do mercado, e o motivo real
A RE 703 alcançou os produtos da empresa Marcos Marciano Wagner EPP, vendidos sob nomes como Secret Love, Black Ice, Kama Sutra, Turbo Gel e Uzempica. Sim, existia um gel de massagem batizado em cima da onda das canetas emagrecedoras. A lista cobre géis corporais com apelo erótico, lubrificantes e extratos ditos energéticos.
O motivo não foi um lote contaminado nem um efeito adverso em série. Foi papel: as notificações estavam canceladas e parte dos itens era de uso interno, o que não cabe na definição legal de cosmético. Produto sem regularização, na leitura da agência, pode ter composição desconhecida ou substância não autorizada, com risco de alergia, irritação e infecção.
O caso do Tesão de Vaca é mais direto. A Anvisa registrou que origem e composição eram desconhecidas, que a fórmula à base de guaraná e catuaba não trazia dosagem especificada e que a propaganda associava o produto a "melhora a vida sexual", "mantém o cérebro jovem" e "reduz o risco de doenças cardíacas, diabetes e câncer". Nenhuma dessas alegações tem comprovação, e nenhuma delas pode ser feita por um produto que não é medicamento.
A linha entre cosmético e medicamento é onde tudo se decide
Cosmético age na superfície do corpo. É essa a definição legal, e dela saem duas consequências práticas que o consumidor consegue checar sozinho.
A primeira: produto para ingerir ou introduzir não é cosmético. Cápsula, gota, gomiga, chá. Isso é alimento ou medicamento, com regras próprias, e foi exatamente esse o gancho da RE 703 sobre parte dos itens.
A segunda: cosmético não pode prometer ação farmacológica. Um gel pode dizer que desliza, aquece, refresca ou formiga. Não pode dizer que trata disfunção erétil, aumenta o pênis, "aperta" a vagina ou cura falta de desejo. Quando a embalagem promete efeito de remédio e o registro é de cosmético, uma das duas informações está errada, e você não sabe qual.
Essa é a regra mais útil de todo o texto: promessa boa demais não é sinal de produto forte, é sinal de rótulo irregular.
O que costuma estar escondido nas cápsulas
O risco maior não está nos géis, está nos comprimidos e gotas vendidos como naturais. Um levantamento analítico de suplementos de desempenho sexual encontrou sildenafila não declarada em 12,7% das amostras, tadalafila em 3,8% e vardenafila em 1,9%, com 13,9% do total contendo algum inibidor de PDE-5 em concentração relevante. Entre 2007 e 2014 o FDA americano listou 572 suplementos adulterados, e 41,6% deles eram vendidos como estimulantes sexuais. Num estudo transversal que comprou produtos em marketplaces, todos os 26 itens adquiridos na Amazon e 80% dos 25 comprados no eBay traziam princípio ativo não declarado.
Traduzindo: parte relevante do que se vende como "fórmula natural de ervas" é Viagra genérico sem bula, sem dose declarada e sem controle de fabricação.
O problema não é o sildenafil em si, que é medicamento seguro quando prescrito. O problema é tomá-lo sem saber. Quem usa nitrato para angina, como a isossorbida, pode ter queda grave de pressão ao combinar com um inibidor de PDE-5. O mesmo vale para alguns remédios de próstata e de pressão. E ninguém conta ao cardiologista que anda tomando um estimulante natural, porque na cabeça de quem toma aquilo é chá em cápsula.
A ioimbina merece parágrafo próprio porque é o ativo que mais aparece nessas fórmulas. Ela tem farmacologia real e existe como medicamento com bula no Brasil, com alguma evidência em disfunção erétil de origem psicogênica. Também é contraindicada em hipertensão, doença cardíaca, insuficiência renal ou hepática e quadros psiquiátricos, e interage com antidepressivos e anti-hipertensivos. Numa cápsula sem dose declarada, isso vira loteria.
O que a evidência realmente sustenta
Descartar a prateleira inteira seria tão preguiçoso quanto acreditar nela. Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Traditional and Complementary Medicine reuniu ensaios clínicos randomizados de suplementos herbais em disfunção erétil e separou o que se sustenta do que não se sustenta.
- Ginseng apareceu em cinco ensaios, com cerca de 399 participantes, e melhorou função erétil, orgasmo, desejo e satisfação geral, além de elevar testosterona.
- Açafrão (o Crocus sativus, não o açafrão-da-terra da cozinha brasileira) apareceu em três ensaios com cerca de 397 participantes e melhorou função erétil e satisfação na relação.
- Maca e Tribulus terrestris, os dois mais vendidos em cápsula por aqui, ficaram na categoria de evidência insuficiente. Não é o mesmo que "não funciona", é "ninguém provou ainda".
Só que a diferença entre o extrato do estudo e o do frasco da loja não é a planta. É a dose, a padronização do extrato e a garantia de que não tem mais nada ali dentro. Ensaio clínico usa extrato titulado; vidro de gotas sem regularização usa o que estava disponível.
Como conferir em dois minutos
Todo cosmético e produto de higiene vendido no Brasil precisa de notificação ou registro na Anvisa, e esse número tem que estar no rótulo.
- Procure na embalagem o número de processo, que começa com 25351, junto com fabricante, CNPJ, lote e validade.
- Consulte em consultas.anvisa.gov.br, na área de cosméticos, pelo número do processo, pelo nome do produto ou pelo CNPJ da empresa.
- O status precisa aparecer como ATIVO. Cancelado ou inexistente significa que aquele item não deveria estar à venda.
- Sem fabricante, sem CNPJ, sem lote e sem validade no rótulo, nem precisa consultar. Deixa na prateleira.
- Venda irregular pode ser denunciada na Ouvidoria da Anvisa. Anote o nome do estabelecimento e, se der, o lote.
Vale checar sobretudo o que vem em frasco genérico, com rótulo impresso em casa, nome apelativo e nenhuma marca por trás. Fabricante conhecido erra menos nesse ponto porque tem CNPJ a perder.
E nos géis, o que olhar além do registro
Registro ativo resolve a legalidade, não resolve o conforto. Para o que entra em mucosa, dois pontos técnicos fazem mais diferença que qualquer promessa de rótulo.
O primeiro é a osmolalidade. A OMS orienta desde 2011 que lubrificantes fiquem idealmente abaixo de 380 mOsm/kg, com teto tolerado de 1200 por falta de opção no mercado. Um estudo em modelo tridimensional de epitélio vaginal mostrou que produtos acima de 1500 mOsm/kg comprometeram as camadas basal e parabasal em quatro de quatro amostras testadas, enquanto os abaixo de 400 não causaram dano. Quem empurra esse número para cima é glicerina e propilenoglicol, presentes justamente nos saborizados e nos adocicados.
O segundo é a lista de ingredientes. Rótulo brasileiro quase nunca traz osmolalidade, então o atalho prático é a composição curta: para penetração, quanto menos aroma, corante e açúcar, melhor. O detalhamento de cada tipo de gel está no guia dos géis comestíveis e eletrizantes, e a comparação entre bases aquosa, siliconada e oleosa está no guia de lubrificantes.
Uma observação sobre uma categoria específica: géis adstringentes que prometem deixar a vagina "mais apertada" funcionam por ressecamento. Menos lubrificação natural com mais atrito é receita de microlesão, que é o oposto do que qualquer pessoa quer.
Onde comprar em Londrina
A recomendação prática é pedir duas informações antes de fechar, por WhatsApp mesmo: a marca e o número de processo na Anvisa. Loja séria responde. Loja que não sabe informar já respondeu.
K-Med Gel Lubrificante Neutro 50 g - R$ 19,90, base aquosa, sem aroma e sem corante, da CIMED. É o padrão para quem quer o básico bem feito
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Queda de desejo que não passa não se resolve na prateleira de cosméticos. Se o problema é constante, vale investigar com urologista, ginecologista ou endocrinologista antes de gastar em frasco, porque as causas mais comuns são hormonais, medicamentosas ou de sono, e nenhuma delas responde a gel.