Casais que compram juntos: como escolher sem um anular o outro

Quase sempre um puxa a conversa e o outro concorda para agradar. Como propor, escolher e recusar numa compra a dois sem que vire cobrança.

Um estudo com 1.054 casais casados publicado na Archives of Sexual Behavior em 2014 mediu a distância entre a frequência sexual que cada pessoa dizia querer e a que realmente acontecia. Quanto maior essa distância, menor a satisfação com a relação, menor a estabilidade e mais conflito relatado. Nada disso aparece na tela na hora de escolher um vibrador, mas é o pano de fundo de quase toda compra feita a dois.

E a compra a dois raramente é a dois de verdade. Um puxa a conversa, o outro concorda. Concordar para agradar não é querer, e a diferença aparece semanas depois, com o produto parado na gaveta.

Alguém puxa a conversa, e quase nunca são os dois

Não existe casal em que as duas pessoas chegam ao mesmo tempo à mesma vontade de mudar alguma coisa no sexo. Alguém pensa primeiro, pesquisa primeiro, abre o site primeiro. Isso não é defeito de ninguém.

O problema começa quando quem puxou trata a hesitação do outro como resistência a ser vencida. Um estudo publicado na PLoS One em 2018 acompanhou 133 casais durante 30 dias e tratou o desejo como algo que oscila ao longo do tempo, não como traço fixo de cada pessoa. Quem hoje está menos a fim pode estar mais a fim daqui a duas semanas.

Se a resposta que você recebeu foi "por mim tudo bem", ainda não houve conversa. Houve concordância.

Propor sem que soe como reclamação

O medo mais comum de quem quer sugerir uma compra é justo: a proposta pode soar como boletim negativo sobre o sexo que o casal já tem. E às vezes soa mesmo, dependendo de onde e de como é dita.

Duas coisas ajudam. A primeira é o lugar. Puxar o assunto na cama, logo antes ou logo depois do sexo, cola a conversa numa avaliação de desempenho. Puxar no carro, na cozinha, num sábado à tarde, tira esse peso.

A segunda é a formulação. "Queria testar isso com você" adiciona. "Acho que a gente precisa de alguma coisa" corrige. A primeira é convite, a segunda é diagnóstico, e ninguém reage bem a diagnóstico.

Quando só um quer novidade

Aqui vale a honestidade que os textos sobre casais costumam evitar: nem todo casal termina alinhado, e forçar alinhamento é pior do que admitir a diferença.

Se um quer experimentar e o outro genuinamente não quer, há três saídas razoáveis. Comprar algo de uso individual, com acordo explícito de que é individual. Adiar sem prazo e sem chantagem. Ou negociar o que de fato incomoda, que muitas vezes não é o produto, e sim onde ele vai ficar guardado ou quem vai saber da compra.

O que não funciona é comprar assim mesmo e esperar que a vontade apareça na hora.

O primeiro produto serve os dois, ou não serve a ninguém em particular

Esse é o critério mais útil e o mais ignorado. Na primeira compra, escolha algo neutro ou algo cujo benefício as duas pessoas enxerguem sem precisar de explicação.

Neutro quer dizer que o produto não aponta para o corpo de ninguém. Um baralho de posições como as 50 Cartas do Prazer, com 50 cartas ilustradas que dá para sortear ao acaso ou escolher juntos, não sugere que alguém esteja fazendo algo errado. O Jogo da Sedução para Casal vem com tabuleiro, um dado e dois pinos coloridos, e os dois pinos andam no mesmo tabuleiro.

A outra rota é o benefício visível para os dois. Um anel vibratório como o Rabbit em silicone, de 10 modos, estimula a região peniana e a clitoriana ao mesmo tempo durante a penetração. Funciona com uma pilha AAA que não vem na caixa. Ninguém precisa argumentar sobre para quem ele serve.

Compare com o anel peniano básico de silicone, sem vibração. A descrição dele é direta: ajuda a retardar a ejaculação e a deixar a ereção mais rígida, com tempo máximo de uso de 30 minutos. É um bom produto e resolve o que promete. Só não é um produto de casal, por mais que seja usado durante o sexo a dois.

As categorias de entrada estão no guia de produtos para casais começando.

O presente que é um pedido disfarçado

Embrulhar como presente algo que serve só a você é o erro mais frequente e o mais constrangedor de desfazer depois.

Um anel com penetrador anal acoplado, por exemplo, presume um interesse que talvez nunca tenha sido conversado. Entregue de surpresa, com laço, ele coloca a outra pessoa numa posição em que recusar parece ingratidão.

Se é um pedido, apresente como pedido. Presente e pedido são coisas diferentes, e misturar as duas tira do outro a chance de responder de verdade.

Quem paga importa mais do que parece

Parece detalhe administrativo. Não é. Quem paga sozinho tende a se sentir dono da expectativa: pagou, agora quer ver funcionando.

Dividir o valor, mesmo que de forma desigual, muda a conversa. O produto passa a ser dos dois, e o eventual fracasso também. Um item de 50 reais rachado ao meio carrega menos cobrança do que um de 350 pago por uma pessoa só.

Se um dos dois ganha bem mais, tudo bem pagar mais. O que importa é a escolha ter sido das duas pessoas antes de o cartão sair da carteira.

Dizer não sem que vire briga

O direito de recusar precisa existir na prática, não na teoria. Se o não custa três dias de clima ruim, ele não existe.

Combinem antes que qualquer um pode desistir em qualquer ponto: na loja, no carrinho, no quarto com o produto já aberto. E que desistir não abre processo.

Quem recebe o não também tem direito de ficar frustrado. Frustração é legítima, punição não. A diferença entre as duas decide se vai haver uma segunda conversa daqui a alguns meses.

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